Como amenizar a ansiedade e o estresse das nossas crianças na pandemia

Colagem @sacharecorta

Isoladas e fora do círculo social, crianças precisam mais do que nunca de acolhimento durante esse período conturbado

Longe da escola e do convívio social e muitas vezes sem saber interpretar as emoções, as crianças estão mais entediadas. É o que nós pais podemos perceber durante o desenrolar do isolamento social, prestes a completar aniversário.

Como fazer com que o reflexo disso tudo seja o menor possível na cabeça e nas emoções delas uma vez que sentimentos de estresse e ansiedade se tornam mais comuns nesse período catastrófico?

De acordo com a pesquisa “ConVid Comportamentos”, feita pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em parceria com a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), e que atingiu mais de 45.161 brasileiros, 40,4% das pessoas entrevistadas disseram ter sentimentos de tristeza ou depressão e 52,6% afirmaram experimentar sentimentos de nervosismo ou ansiedade, muitas vezes ou sempre.

E embora os que mais tiveram a saúde mental afetada sejam mulheres e pessoas com histórico de depressão, ligar o alerta em relação às nossas crianças é necessário — sabemos.  Elas estão sofrendo assim como todo mundo, mas com a diferença de que não possuem a mesma compreensão que a gente sobre as coisas e nem sempre conseguem externar o que sentem.

Diante desse cenário, foi desenvolvida uma cartilha por pesquisadores colaboradores do Centro de Estudos e Pesquisas em Emergências e Desastres em Saúde (Cepedes/Fiocruz), acesse aqui para ajudar nós, pais e cuidadores, sobre como  direcionar o cuidado aos nossos filhos nesse momento tão ofuscado, sobretudo no que diz respeito ao que sentimentos e pensamos.

Numa conversa por e-mail, Gabi Carlos, educadora parental e criadora da página @sobreelefantes no Instagram, falou do impacto do isolamento social nas nossas crianças e como podemos amenizar toda essa situação na vida delas. Vejam:

1- Com o isolamento social, crianças estão afastadas dos amigos e parentes, ficando restritas aos ambientes da casa. Qual o impacto dessa mudança brusca na rotina na vida delas no que diz respeito à saúde mental?

Gabi Carlos – A gente sabe que houve impactos, uns perceptíveis logo após os primeiros meses, pelos próprios pais e cuidadores. Crianças mau humoradas, impacientes, mais reativas, entediadas. Ou, e talvez mais preocupante, irritadas além do normal, tristes, apáticas, sem apetite, com muita fadiga, sintomas que devem ser observados com atenção para que não evoluam para um quadro de depressão infantil.

Mas além destes impactos, que já podemos perceber hoje, há aqueles que só saberemos no futuro. O quanto esse isolamento social afetou o desenvolvimento de habilidades sociais e cognitivas ainda não dá para prever. E

não será igual para todas as crianças ou para todas as idades. Crianças que passaram o isolamento na companhia de irmãos ou primos, ou que tinham algum acesso à natureza, por exemplo, tem mais chances de serem menos impactadas.

2- Quais são os sinais de que a criança está estressada, ansiosa e irritada por causa da pandemia e do isolamento social?

Não dá pra ter certeza de que a causa do estresse, ansiedade e irritação é o isolamento. Mas é dedutível que seja, a menos que a criança esteja vivenciando alguma situação fora do comum em casa, além da pandemia.

Seguramente a falta de convivência com os amigos e a família, principalmente com os avós, a falta de sair, frequentar parques, cinemas, escolinha de artes e esportes e a própria escola são fatores desencadeantes de ansiedade e estresse e isso se reflete em irritação, reatividade, rebeldia ou, como falei, em aspectos mais ligados a sintomas de depressão.

3- Como os pais podem trabalhar estes sintomas e reduzir ao máximo os impactos causados pela pandemia na vida dos seus filhos?

Os pais também estão a mercê de sentirem eles mesmos estes sintomas. Mas, como adultos, e apesar do ineditismo dessa situação, sabemos, ou pelo menos já deveríamos saber, lidar melhor com tudo isso. E é o que precisamos para ajudar nossas crianças.

Se por um lado o isolamento mudou nossas rotinas e trouxe sobrecarga para muitas famílias, especialmente para as mães, também é uma oportunidade de convivência que jamais tivemos. Apesar do cansaço, encarar essa situação por essa ótica, a da oportunidade de fortalecer vínculos, pode ser incrível e oferece equilíbrio emocional e segurança.

Olhar mais nossos filhos nos olhos. Ouvi-los, escuta empática de verdade. Tempo dedicado, seja em simples conversas, em realizar tarefas domésticas juntos, jogos, brincadeiras. Algumas famílias se esforçaram muito para manter uma rotina rígida na esperança desse ser o melhor caminho para atravessar essa fase.

As crianças precisam de rotina para se sentirem seguras, mas elas já estão tão sobrecarregadas emocionalmente que é preciso cuidado para não exagerar na dose. Também sei que o uso de telas aumentou muito na maioria das casas e tudo bem, é natural. Porém, é preciso abrir espaço para o tédio e entender que a criança precisa ser responsável por gerenciar seu tempo livre.

Muitas crianças não sabem fazer isso e ficam perdidas sem as telas, sem saber o que fazer. É um bom momento para exercitarem esse gerenciamento do tédio, por exemplo. No começo pode chover reclamação, mas elas acabam por achar o que fazer. Os pais não precisam ficar preocupados em oferecer atividades 24 horas por dia. Elas precisam brincar livres, inventar suas próprias atividades.

4- Quais tipos de brincadeiras ajudam a reduzir a ansiedade e a sensação de tédio nas crianças pequenas de até cinco anos?

As telas não ajudam em nada, para ser bem direta, mesmo sabendo que nesse momento fica difícil abrir mão dessa opção. Atividades com o corpo são ideais nessa faixa etária. Atividades manuais como desenhar, pintar, recortar e colar, fazer artesanato. Crianças a partir de 4 anos já conseguem fazer pulseirinhas ou mandalas, se forem orientadas, na internet dá pra achar fácil como fazer.

Dançar, brincar de imitar animais. Se houver espaço, reservar um tempo para andar de bicicleta, de motoca. Uma boa ideia também é cultivar plantinhas ou uma horta. E inclua sempre que possível as crianças nos afazeres da casa.

Existem tabelas que indicam atividades domésticas adequadas para cada faixa etária. Além de movimentar o corpo, elas se sentem importantes por participarem da rotina da casa e isso conta muitos pontos para o senso de pertencimento e para fortalecimento da sua autoimagem.

5- Como descobrir se os sentimentos de tédio, ansiedade e estresse estão prejudicando a saúde mental da criança e como buscar ajuda em um momento de acessos restritos?

Os principais sintomas de um quadro de depressão infantil são tristeza e um tipo de apatia, como uma falta de vontade de fazer o que ela comumente faz como brincar, jogar, ver televisão. Esses sintomas somados às dificuldades para dormir, distúrbios de alimentação ou queixas de dores físicas devem ser acompanhados atentamente. Algumas crianças, em vez de se mostrarem tristes, ficam irritadas além do normal.  Muitos profissionais continuam atendendo  presencialmente com os devidos cuidados.

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