Crianças podem adquirir medos na pandemia: como identificá-los e trabalhá-los

Nesse período de pandemia pode acontecer das crianças sentirem mais medo, um comportamento que, segundo Haroldo Sato, mestre e doutor em Psicologia Clínica pela USP e psicoterapeuta de crianças, adolescentes e adultos, acaba sendo reflexo do que nós, pais, estamos sentindo. O Childline, serviço de aconselhamento para crianças e jovens até os 19 anos de idade no Reino Unido, relatou um aumento de 16% no número de sessões de aconselhamento de saúde mental para crianças de 11 anos ou mais.

Como reconhecer esta sensação de medo constante para saber trabalhar este sentimento — muitas vezes em excesso — nas nossas crianças em meio ao cenário de pandemia? Conversei com Haroldo Sato sobre isso.

1. Nesse período de pandemia as crianças podem ter mais medo?

Com certeza. Primeiro que os próprios pais estão com mais medo, de certe forma, e isso gera impacto nas crianças. O medo é reação normal do ser humano, porém o que acontece é que o medo está mais em evidência. No entanto, os pais podem ficar muito ansiosos por causa da pandemia e elas [as crianças] naturalmente ficam com medo também. Claro que a gente tem que se proteger, mas também o exagero das condutas pode deixar as crianças mais inseguras.

2.Quais os sintomas de quando a criança está com mais medo?

Pesadelos, choros, recusas de sair. É bom respirar um ar que não seja do apartamento, fazer coisas que têm importância para a saúde mental da criança, mas, claro, sempre usando máscara e álcool gel e respeitando as regras de distanciamento, como dar uma caminhada, ir na área de lazer do prédio.

3.Ficar muito tempo fechado no apartamento pode deixar a criança com algum estresse mental?

O estresse é dado por duas maneiras, uma por excesso de estímulos, demandas, você tem mil desafios e fica estressado, outro estresse é por falta de estímulos, então pessoas que sempre vivem no mesmo ambiente, sempre veem as mesmas coisas, comem as mesmas comidas, isso é ruim para o organismo também, tanto para a criança quanto para o adulto. Até os animais são assim. Você vê o exemplo do zoológico, onde os animais muitas vezes ficam em um espaço limitado, num cercadinho, sem variações de estímulos e ficam estressados. Nada muda, tudo é igual, e o ser humano precisa de estímulos variados até para ativar o seu organismo, se não tiver nenhum estímulo novo a criança pode entrar em estresse e depois até ter depressão.

4.E como cuidar dos medos das crianças?

Primeiro os pais precisam mostrar uma atitude mais equilibrada, mais centrada. O Jung falava que o equilíbrio é a saúde psíquica; um dos meios de você avaliar a saúde psicológica de alguém é avaliar o equilíbrio dela, claro que não ter nenhum medo diante da situação em que vivemos é uma conduta até perigosa, é ruim, mas ter muito medo também não é bom.

O adulto que cuida da criança tem que entender também que não pode ficar totalmente amedrontado. A criança vai presenciar e tende a imitar o comportamento do adulto. Ela acaba introjetando isso dentro dela e acaba se identificando com a pessoa que faz isso e agindo da mesma forma. Tem que tomar cuidado, o vírus é uma ameaça real, por outro lado também não pode ficar totalmente paralisado pelo vírus.

O medo é uma forma de preservação do indivíduo da espécie de certa forma. Tem os mecanismos fisiológicos que atuam para você sentir medo. Existe toda uma relação entre corpo e mente através da ativação do sistema nervoso simpático que ajuda isso. Quando você toma um susto, por exemplo, seu coração acelera porque nós temos dois sistemas nervosos, o sistema nervoso central, que é responsável pelas questões mais conscientes e funcionamento do corpo e das nossas atividades, e o sistema nervoso autônomo [conhecido também como sistema nervoso vegetativo], autônomo porque funciona sem a nossa vontade.

Algumas funções no organismo funcionam sem controle consciente, por exemplo, se a gente tivesse que pensar para respirar ou bater o coração nós não poderíamos dormir. Quando existe uma ameaça real e de extrema avalia é melhor ficar tenso para reagir. E isso acontece quando sentimos medo.