Se conectar para se conectar com os filhos

Colagem por Maja Egli

Olá chicas, como estão?

A avalanche de acontecimentos e obrigações ativa o modo automático e se distanciar de você mesma acaba que sendo uma resposta a isso tudo. Talvez uma mecanismo de defesa contra seu lado mais profundo?

É quando cai a ficha de que é preciso caber dentro de você primeiro pra se encaixar no lugar de mulher, mãe, o ser que deseja. Recuar, se fechar, se olhar. Se viver exige intensidade, esse portal de dentro de nós precisa ser abastecido para que haja imensidão. Manter essa conexão com nós mesmas é, sem dúvida, o maior desafio.

E nessa peleja, você tem parado pra se escutar ou tem fugido de você mesma? Estar inteira exige. Exige coragem, exige um querer de verdade. Exige ânimo pra tirar os móveis do lugar e levantar a poeira debaixo do tapete. Exige sair da zona de conforto, questionar suas certezas.

Essa tal necessidade de balançar nossas verdades, cavucar questões nunca tocadas antes é revolucionária e o impacto no lado mãe é avassalador. Precisamos transbordar pra poder dividir e, para além disso, mostrar na prática o que se aproxima do que é viver “plenamente”.

É da maternidade de onde nossas energias são consumidas numa potência surreal e para que esse maternar siga acontecendo forças precisam ser resgatadas, movimentos devem acontecer.

Nesse rolê louco da vida, quando a bússola está desregulada e as ruas ficam sem saída, daí a necessidade desse cara-a-cara com gente. Se colocar numa outra perspectiva, nadar de braçada sobre seus embates, apertar o que estava frouxo, te levar de volta à sua órbita.

Mas ledo engano achar que deixar de se alienar de nós mesmas significa encontrar a paz eterna, até porque, já diria Freud “O Eu não é senhor em sua morada, ele está sempre em conflito”. E apesar dessa visita à você ser algo sem fim, vale a pena, e, no fundo, a gente sabe disso.

Se reconectar com a natureza é potente e pode trazer respostas para as mais profundas questões. Andar sozinha, observar as ondas e o vento são remédios para alma, no fazendo escapar do burnout materno ou até nos curar dele.

Chega uma hora, que é preciso abandonar aquela mulher que já não se encaixa mais aí dentro, recolher os cacos e ir. E para que essa reprogramação aconteça é preciso abraçar o desconforto. Pois, como disse Rubem Alves: “ostra feliz não faz pérola”.

Bjs, se cuidem.

Exaustão materna e a busca da perfeição

Nas livrarias a gente fica até atordoada com tanto título focado em como sermos mães experts na criação. Quem ama, educa!, Disciplina Positiva, Comunicação não-violenta e por aí vai… No mundo das telas, a oferta também é grande, centenas de páginas indicam mil e uma maneiras de como “ajudar o filho a ter autoestima saudável”, “como aprender a se comunicar com a criança de forma bem-sucedida”, “como fazer e não fazer para o filho não dormir mais na sua cama”… Informações de todos os lados surgem a todo instante. Por muitas vezes caem como uma luva – eu mesma já dei várias googladas na tentativa de achar respostas para birras da Helena. Com tanta facilidade fica difícil até filtrar o que chega pra gente.

Em meio ao desgaste mental que é educar, se aprisionar em algum método é pedir para embarcar numa canoa furada, já que exercer esse ofício é um processo contínuo de aprendizado e transformação e não existe uma fórmula exata. Cada pessoa é única, cada criança também. O que se aplicou uma vez pode não servir mais. Estamos o tempo todo mudando as estratégias desse jogo incessante. E se buscamos educar para a paz, liberdade e respeito mútuo não é seguindo caminhos das teorias inexoráveis que atingiremos esse objetivo, até porque nossos valores e instintos falam mais alto no momento que precisamos agir rápido.

Já estamos criando os filhos com nossas maiores forças, dando o nosso melhor, imagine se a gente ficar nessa automutilação para ocupar o lugar inalcançável da perfeição? Não há sanidade mental que aguente. Nos grupos das redes sociais dá pra perceber o tanto de mães exaustas à beira da loucura. A tão falada síndrome de burnout ganhou a versão materna e invadiu os lares. O estado de esgotamento no ambiente de trabalho detectado pelo psicanalista alemão Herbert Freudenberger radicado nos Estados Unidos começou a ser estudado pela psicóloga belga Moïra Mikolajczak. Na reportagem sobre o tema no bebe.com.br (clique aqui para ler a matéria), Juliana Benevides, psicóloga clínica e perinatal, diz que o que contribui para esse quadro é que a maioria das mulheres é submetida ao esgotamento porque se espera que elas estejam preparadas para serem mães, profissionais e donas de casa. E isso vai acumulando a sensação interna de que a vida está anulada. “pois nada do que fazem é para elas, não há um momento de ócio”, afirma.

Desde os primórdios sabemos que a perfeição humana não existe. Sem que a gente perceba, querer atingir o estado de mãe extraordinária não nos leva a lugar nenhum a não ser à exaustão mental, além de colaborar para a imagem romantizada da maternidade. E vamos combinar que tudo de que não precisamos é viver nesse cenário de ficção enfadonho, mas sim encarar de peito aberto as dores e as fraquezas que vêm no pacote em ser mãe? Só assim atingiremos o ápice do universo particular maternal de cada uma. Hoje é possível participar de comunidades destinadas a destrinchar os pontos mais sensíveis que envolvem a maternidade. É o caso, por exemplo, do Mulheres Visíveis, Mães Possíveis, criado para promover encontros entre mulheres com o propósito de dividir experiências e aprender umas com as outras.

Embora tocar nesse solo onde residem os fracassos e as culpas nos cause medo, assumir o risco de encarar os nossos monstros é importante e necessário.

Se silenciar pelo medo de falhar, algo que é tão humano, desperta mais transtorno do que qualquer outra coisa. Além do mais, evitar o erro inibe a ação e o impulso de explorar novas ideias, estimulando a cultura do cancelamento. Penso que agora, em plena Quarta Revolução, com novas tecnologias surgindo a cada piscar de olhos, é que devemos colocar os nossos medo no bolso e aproveitar toda a oportunidade de transformação que o ecossistema do conhecimento digital oferece.

Tudo bem que nessa caótica era do excepcional somos pressionados a atingir a doce ilusão da perfeição. E olha, até que sob os holofotes dos nossos espectadores conseguimos sustentar a nossa melhor versão, mas será que estamos sendo honestos com a gente ao se deixar levar pela sociedade do espetáculo onde quem dá mais show sai na frente com mais pontos? O filósofo francês Charles Pépin afirma que estamos chegando ao fim desse ciclo de obsessão pelo sucesso. Em seu livro As Virtudes do Fracasso, ele defende que não há sucesso sem o fracasso. Pépin diz que as falhas são inerentes ao ser humano e que somos capazes de chegar muito mais longe quando as enxergamos e as corrigimos. Ele diz que muitas vezes precisamos errar repetidamente até nos sentirmos deprimidos e nos aproximarmos do que realmente pretendemos.

Diante desse olhar, viver uma maternidade real sem tanto peso, aceitando os fracassos como uma forma de aprimoramento, só vai nos deixar mais felizes e realizadas. A propósito, você já parou pra pensar qual foi o seu fracasso que te levou a uma grande realização?!

Bjs