As coragens de uma mãe

O medo, ou melhor, ‘os medos de quando nos tornamos mães’, já andou por aqui, em um post um tempo atrás. Talvez por instinto, aderimos alguns medos, mas, por outro lado, ganhamos uma força e uma coragem imensuráveis. Falar de coragem em um momento tão obscuro onde, por vezes, somos tomadas por certos temores é reforçar o nosso poder enquanto mães e mulheres, destacar aquele lugar quentinho de afeto e otimismo que nós sabemos ocupar e proporcionar como ninguém.

São as mulheres que, em maior proporção, estão na linha de frente do cuidado, são as mulheres que vêm se desdobrando de forma desproporcional para fazer com que a vida não pare. Países liderados por mulheres, como Alemanha e Dinamarca, tiveram o índice de casos e mortes da covid-19 mais controlados. Essa natureza do cuidado de onde nós viemos só pode ser adubada com doses generosas de resiliência, palavra tão batida, mas que sempre fez parte do nosso vocabulário. Por isso, você tem dúvida da sua força e coragem?

E se por acaso em algum momento questionar essa potência que esvai de dentro de você, lembre-se das suas conquistas e dos seus passos até aqui. Falando por mim, quando me tornei mãe ganhei coragens que, no mínimo, não sabia que as possuía. A começar pelo parto, onde você enfrenta pelo menos o medo da morte, supera dores e o incômodo do pós-cirúrgico em prol da mãe que acabou de se despontar.

Depois, de frente com os cuidados com aquele ser todo frágil e dependente, não existe possibilidade do medo crescer porque tem algo maior que você precisa sustentar pra poder proporcionar segurança, conforto e todos amparos imprescindíveis para essa vida em desenvolvimento. Então quando a criança adoece aí que você mostra o monstro gigante da força que habita o seu corpo.

Quer uma mãe em frangalhos é vê-la com seu filho com a saúde ameaçada. A gastrite ataca, a imunidade dispara lá no pé, mas aquela mulher está ali, pronta pro que der e vier, bebendo de uma fonte inesgotável de valentia. Sim, ser mãe é ter sua sua estabilidade emocional e mental testada constantemente. Um filho abala as estruturas e mede o quão grande é a nossa capacidade de lidar com os desafios da vida.

Dar de frente com questões que envolvem a maternidade nos obriga encarar quem somos, contestar tudo que nos foi um dia imposto como verdade absoluta. Afinal, a missão de preparar alguém pro mundo requer uma atenção especial à nós mesmas. E se antes encarar o status quo era amedrontador isso já não é mais.

Que mesmo diante do momento obscuro por qual todas passamos que nós saibamos utilizar toda nossa coragem para se ressignificar e seguir exercendo o nosso papel materno brilhantemente, dia após dia.


Poema para uma mãe

Se você se culpa por ter voltado a “trabalhar” e não estar full time com a cria, relaxa, faz parte, a maioria das mães fazem isso e todas sobrevivem.

Se você se culpa por ficar muito tempo com a cria e se sente sobrecarregada, estressada e exaurida, relaxa, está tudo bem, tudo passa.

Se você se culpa por ter cuidado um pouco de você e ter deixado de dar a “atenção” total para a cria, relaxa, está tudo sob controle, pra cuidar do outro você também precisa de cuidados.

Se você se cobra por não ter mantido aquela paciência praticada diariamente, fica tranquila, você não é de ferro e como qualquer ser humano tem seus “dias”.

Se você se arrependeu de ter investido uma grana com roupas e afins pra se sentir bem e atender a uma necessidade natural, tá tudo bem, você também precisa — e merece.

Se você se culpou por ter esticado o expediente para encontrar a amiga, se socializar faz parte de uma mente saudável, respeite-se.

Se você se critica por ter dormido um pouco mais e não ter dado conta de “tudo”, relaxa, Roma não foi feita em um só dia, por que você tem de conseguir fazer tudo em 24 horas?

Se você se culpa por não ter ensinado a falar, andar e desfraldar seguindo os manuais de “conduta da melhor maneira de criar o filho”, relaxa, o que serve para os outros pode não se enquadrar para você e seu filho.

Se você se culpa por não ter voltado à vida de antes, fica tranquila, isso nunca acontecerá, pois, agora, você é um outro ser e bem-vinda ao universo em que doação, renúncia e amor andarão sempre juntos.


Quando teu filho nascer…

Você vai escutar algumas vezes durante a gravidez: “aproveita pra dormir porque quando nascer…”. Ou: “quando nascer você nunca mais vai dormir por oito horas seguidas”. Sim, tuuudo verdade! Mas não se apavore, pois a natureza é tão perfeita que você vai descobrir uma força suprema e a capacidade de lidar com o dia a dia mesmo sem dormir bem e por várias horas seguidas!

E, quando teu filho nascer, mais do que descobrir a força que existe dentre você, irá encontrar uma paciência quase que de buda e uma desenvoltura para lidar com certos estigmas e pensamentos ‘machistas’.

Quando teu filho nascer, não precisa encarar a fortona o tempo inteiro, você pode gritar, esbravejar e se revoltar, mesmo que seja interpretada como uma reação típica de tpm ou uma insanidade momentânea por conta da queda brusca dos hormônios.

Quando teu filho nascer, se você por acaso quiser cobri-lo por várias camadas de roupa com receio de que sinta frio mesmo que o sol brilhe lá fora, o máximo que vai acontecer é você ter que tirar algumas peças logo em seguida. Então, deixe te olharem torto como se você, em vez de ter saído da maternidade pra casa, deveria ter ido direto pro manicômio. Tudo passa…

Quando teu filho nascer, pode incorporar a Loka do alcóol, pois, do contrário, vc corre o grande risco de sofrer depois porque o baby pegou um resfriado, gripe ou bronquilote (seríssimo isso!) e aquele misto de peso na consciência de não ter protegido o seu filho e cansaço por acumular noites mal dormidas vai te acometer.

Quando teu filho nascer, deixa as opiniões alheias de lado e filtre apenas o que te faz sentido, pois, senão, ficará totalmente confusa. Quando teu filho nascer, antes de tudo, vai na sua intuição. Aquela máxima de que “nasce um filho, nasce uma mãe” não existe à toa.

Quando teu filho nascer, aproveite a nova mulher, mais confiante, forte, guerreira, que passará a ocupar o lugar de uma persona passageira prestes a despontar para uma (nova) vida.