Mãe na real, Pausa para um papo

Isoladas com seus filhos, mães solo desabafam em rede social

Cansaço mental e físico é assunto entre interações de mães solo no Instagram

Uma enxurrada de comentários surge no post sobre mãe solo na quarentena do @maeforadacaixa, perfil voltado para maternidade no Instagram. Afinal, viver uma rotina sozinha com suas crianças é o lugar de fala de muitas mulheres.

Ao deslizar o dedo na publicação, as mais de 500 interações se dividem entre desabafos de mães esgotadas, palavras de consolo de outras mulheres e iniciativas mais que positivas de profissionais da área psicológica tentado dar escuta para quem vive esse grande desafio de criar e dar conta de todas as adversidades causadas pela pandemia.

Ao mesmo tempo que me sinto compassiva com as experiências relatadas ali, me vejo tomada por um orgulho de notar que o ser humano tem se prestado tanto a ajudar as pessoas em um período tão duro que estamos vivendo. Uma das ações é o projeto Mãe Polvo (@_projetomaepolvo).

Com cerca de seis meses de existência, a página no Instagram já tem mais de 14 mil seguidores, a maioria mães solteiras que encontram ali um abraço virtual, um conforto, uma forma para se sentir acolhidas.

“Abrimos este espaço para as mães solos contarem suas experiências com a maternidade solo, seus medos, suas inseguranças e frustrações, mas também suas alegrias, suas conquistas e conquistas dos seus bebês.”, conta Sabrinne Abe, criadora do projeto.

Mas o projeto vai além. A ideia, revela Sabrinne, é contar com creches em que possam deixar seus filhos de acordo com seus horários, “para ajudar quem tem que ficar até mais tarde no trabalho”, diz.

Uma em cada cinco mulheres na capital paulista exercem a maternidade sem apoio de mais ninguém em casa, segundo estudo da Rede Nossa São Paulo, organização da sociedade civil que tem por missão mobilizar diversos segmentos da sociedade para fomentar, articular e promover ações em prol de uma sociedade mais justa.

De fato, nós mães solteiras sentimos na pele o desgaste de conciliar a rotina da casa com trabalho e dedicação aos filhos. Tocar nesse solo, pensar em ações e políticas públicas para melhor esse cenário cruel de quem vivem a maternidade sozinha precisam e devem acontecer com mais frequência e profundidade.

A quarentena nos tirou não só a nossa rotina mas a rede de apoio com que contávamos para conseguir equilibrar todos os pratos na medida do possível e iniciativas como o @_projetomaepolvo (acesse aqui quem quiser assistir a live que fiz com Sabrinne) são um acalento.

“Ser mãe solo é um desafio em pleno século 21. Ganhamos espaço, porém há ainda muitas barreiras a serem transpassadas. Precisamos lutar por visibilidade política, social e no campo do mercado de trabalho”, observa Sabrinne, que lamenta ainda existir tanto preconceito por parte das empresas no que diz respeito ao assunto maternidade.

“Queremos mudar essa visão da sociedade e mostrar que as mães, sejam elas solos ou não, não são menos capazes do que qualquer outra mulher, que a maternidade é inclusive combustível para o bom desempenho das funções, pois, além de muitas não terem o apoio do pai da criança, querem dar o melhor que puderem para seus filhos.”, reforça.

Hoje casada, Sabrinne já fez parte da parcela de mães solo com seu primeiro filho (hoje ela é casada e teve uma bebê). Abandonada pelo ex-marido durante a gestação, viveu experiências que apesar de doloridas serviram de combustível para dar vida a esse lindo projeto no qual torço muito para que alce grandes voos.

Imagem Unsplash

Dificuldade financeira agrava situação psicológica de muitas mães sozinhas

Segundo o IBGE, mais da metade das mães solo que moram na cidade São Paulo vivem com até dois salários mínimos. Em um cenário de crise, a preocupação de garantir o pão na mesa é ainda maior. E quando o direito ao auxílio emergencial que é oferecido a nós mães solo em situação de desemprego não chega até muitas de nós por algum motivo?

Sabrinne reforça que a questão financeira é a maior dificuldade que muitas mães encontram durante a luta na criação dos filhos. “Elas precisam trabalhar, porém precisam deixar seus filhos com alguém, muitas não têm rede de apoio e as escolas ainda não têm previsão de retorno”, conta.

Diante da angústia do futuro duvidoso e da instabilidade financeira, ainda é preciso manter o equilíbrio mental e emocional para dar conta da educação dos filhos em casa. O calo de fato apertou.

E mais do que nunca chegou a hora de darmos a mão umas para outras da forma como podemos, que seja com palavras através de espaços para diálogos, por exemplo. Pessoas estão adoecendo e perdendo suas vidas. A humanidade chegou num ponto em que a cooperação virou necessidade básica de sobrevivência. Parabéns Sabrinne.