Mãe na real, Pausa para um papo

Crise de Covid-19 contribui para o aumento da violência doméstica no mundo

Imagem Unsplash

O início do texto diz de cara: o conteúdo só pode ser compartilhado por whatsapp. A mensagem em questão apresenta a campanha de uma grande empresa brasileira com a intenção de ajudar mulheres que estão passando por algum tipo de violência doméstica. Disfarçado de tutorial de maquiagem, o vídeo, enquanto mostra cenas do maquiador Marcos Costa ensinando como fazer o perfeito delineado, na verdade é um atalho para ajudar vítimas e se safar de seus agressores.

É triste aceitar, mas a violência doméstica – é importante destacar que ela abrange várias tipos desde física à psicológica e sexual – tem se alastrado em época de isolamento social. Um vírus catastrófico assim como o que causa Covid-19.

No Brasil, segundo a Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres, do começo ao fim do mês de maio desse ano (quando começou a quarentena) o aumento no número de registros no canal de denúncias 180 foi de 17%. A situação é preocupante. Por causa da pandemia de covid-19 a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo ampliou o serviço da delegacia eletrônica e passou a disponibilizar o registro de ocorrências de violência doméstica online (acesse aqui o link).

Recentemente, o governador do estado paulista, João Doria (PSDB), sancionou o projeto de lei da Patrulha Maria da Penha, que reúne uma série de ações para monitoramento da segurança de mulheres vítimas de violência doméstica.

Em outros estados como Rio de Janeiro e Bahia já existe o serviço que funciona como uma espécie de ronda militar destinada às mulheres vulneráveis. E apesar da patrulha já acontecer no estado fluminense, a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro revelou um crescimento de 50% nos casos de violência doméstica por lá durante os primeiros dias do período de isolamento.

Conviver por mais tempo do que o comum com o agressor pode custar a vida de muitas mulheres no mundo todo durante a pandemia. Na China, por exemplo, com mais de 50 milhões de pessoas confinadas desde 23 de janeiro na província de Hubei, os casos de violência doméstica estufaram. Em Pequim, o governo colocou à disposição mais de 300 linhas de assistência telefônica administradas por universidades ou associações ligadas ao assunto. Outro caminho criado na capital chinesa foi disponibilizar sessões de análise em streaming nas quais psicólogos respondem às perguntas dos internautas.

Outro país que decretou confinamento e tem sofrido com o aumento da violência doméstica é a Espanha, cujo crescimento nas ligações de emergência foi de 18% nas duas primeiras semanas de bloqueio comparado com o mesmo período do mês anterior.

A situação realmente desespera. Tanto é que as Nações Unidas pediram no domingo medidas urgentes para combater o aumento mundial dos abusos em casa. Em seu twitter, o secretário geral António Guterres apelou: “Peça a todos os governos que coloquem a segurança das mulheres em primeiro lugar ao responder à pandemia”.

Lívia Maria Guimarães, psicóloga e voluntária do Mapa do Acolhimento, ONG que reúne uma rede de terapeutas e advogadas para atender de forma gratuita mulheres que passaram ou passam por qualquer tipo de abuso (acesse o link da entidade aqui para saber mais), observa que o “isolamento social na pandemia aumenta as possibilidades de escapar de uma situação de abuso”.

Ela destaca que um dos fatores catalisadores da violência é o consumo de bebidas alcoólicas que, vale destacar, cresceu na pandemia. “Também podemos que outras questões de ordem econômica e social que podem influenciar o agravamento entre as relações. Mas o que acho importante ressaltar é que nada justifica atos de violência, de qualquer natureza, a qualquer grupo social”, destaca.

Lívia reforça: “a vítima não está sozinha e há muitas organizações engajadas em auxiliá-la neste momento. Acolhendo com amor às suas necessidades é possível sair dessa situação, pois ela já tem todos os recursos que precisa para acessar essa força de transformação. Mesmo durante a quarentena os serviços de apoio à mulher permanecem em funcionamento.”

Além do ligue 180 disponível para qualquer região do Brasil, em São Paulo o governo desenvolveu o aplicativo SOS Mulher (saiba mais aqui) que permite que mulheres tenham medidas protetivas concedidas pela justiça acionem o serviço 190 em caso de risco.

Os Centros de Referência de Atendimento às Mulheres são locais destinados ao acolhimento e acompanhamento de mulheres em situação de violência e quem sofre agressão pode procurar a unidade mais próxima. Movimentos e iniciativas criadas por autoridades e empresas permitem diferentes caminhos para buscar ajuda. E apesar da situação de vulnerabilidade nós mulheres remamos cada vez mais forte para que esse mal cesse.

“Estamos fazendo barulho! Os índices de violência aumentaram porque as denúncias ganharam volume e dessa maneira os movimentos e serviços se aprimoraram e este dado é positivo.”, diz Lívia. Do ponto de vista de outro ângulo e não da mulher, passou da hora de que os homens sejam colocados no centro da questão.

Chegou a vez de quem agride assumir a coragem necessária para buscar ajuda e mudar esse quadro. Como? Avaliando as causas do comportamento e desconstruindo a cultura da tal da masculinidade estereotipada. Lívia diz que consegue ver uma luz no fim do túnel e recomenda o documentário O Silêncio dos Homens, (clique aqui para assistir no Youtube). A obra aborda relatos de homens que buscaram ajuda para mudar posturas abusivas.

Como mulher, me incomoda muito dar de cara com as estatísticas e ficar quieta. Compartilhe esse conteúdo e ajude a chegar até quem precisa. #juntassomosmaisfortes