
Me rasgo tentando compreender o que me prende como uma âncora que não deixa o barco navegar pelas ondas, ora turbulentas, ora calmas, de um mar que resiste a todas as formas de maus tratos.
Me remendo tentando entender o que me arrebentou o peito e me fez doer o coração enquanto eu ansiava por afeto, mas me vi sendo acometida pelo desamor.
Me atravesso toda vez que tento compreender a origem dos meus pensamentos, o motivo de me colocar na encruzilhada da vida e pedir para ser apedrejada quando, o que mais anseio, é por amor.
Me firo toda vez que crio cenas na minha cabeça de amores não consumidos. Me tiro de cena toda vez que tenho a prova viva de que eu preciso me calar diante de uma manifestação de raiva ou conclusão precipitada, ou até mesmo diante de um esboçar maquiado pela raiva.
Em compensação, festejo o amor, a cumplicidade, a amizade genuína, o ato de doar ao outro, a virtude que nós seres humanos temos de vibrar pela alegria do próximo.
Me corto os pulsos toda vez que insisto em algo que me faz sangrar alma. Viver querendo o amor de quem está tomado pela sede de vingança, pelo querer ofertar sofrimento em detrimento da bem-aventurança, é como morrer estando viva.
Me despedaço quando perguntas não são respondidas, elogios são ignorados e refúgios me são dados.
Me quebro por inteira quando meu sorriso, meu olhar com afeto, minhas palavras amorosas são recebidas com pouca, ou quase nada, aceitação.
Me desfaço do meu ser toda vez que ocupo espaços que não me cabem, onde a indiferença, o desprezo são servidos de bandeja sem dó nem piedade.
É preciso ser muito para viver num mundo de tanta frieza, de tanto desprezo, onde o perdão não tem vez, e o desejo de lacrar é maior do que a vontade de amar.
Que não seja necessário nos arrebentar por inteira para entender que o amor é tão essencial quanto o ar que preenche nossos pulmões.
Que o romance entre o céu e as estrelas nos abasteça de esperança por um mundo tão cintilante quanto os astros que enfeitam nosso planeta. Que nossos dias sejam compostos de pessoas dispostas, a amar, a perdoar, a fazer da dor o antídoto para a cura.
